O gerente do banco apresenta duas opções, você olha para as parcelas e escolhe a menor. É a decisão mais natural do mundo — e, num financiamento de trinta anos, pode ser a mais cara que você vai tomar na vida.
A diferença entre Tabela Price e SAC não está na taxa de juros. Está em como a dívida é paga ao longo do tempo. E essa diferença estrutural, aplicada a trezentas e sessenta parcelas, produz distâncias que passam facilmente de cem mil reais.
O que muda entre os dois sistemas
Todo financiamento tem dois componentes em cada parcela: uma fatia que amortiza (abate o saldo devedor) e uma fatia de juros (o custo de ter aquele dinheiro emprestado naquele mês). Os juros sempre incidem sobre o saldo devedor atual.
O que distingue Price de SAC é qual desses dois componentes é mantido constante.
Na Tabela Price, a parcela total é fixa. Para que ela se mantenha igual enquanto os juros caem, a amortização precisa crescer. Consequência: no início, quase tudo que você paga é juros.
No SAC, a amortização é fixa — o valor financiado dividido pelo número de parcelas. Como o saldo devedor cai de forma linear, os juros caem junto, e a parcela total diminui todo mês.
O exemplo que mostra a diferença
Vamos usar números redondos: R$ 240 mil financiados, taxa de 10,5% ao ano, prazo de 30 anos (360 parcelas).
| Tabela Price | SAC | |
|---|---|---|
| Primeira parcela | ~R$ 2.150 | ~R$ 2.673 |
| Parcela no ano 15 | ~R$ 2.150 | ~R$ 1.673 |
| Última parcela | ~R$ 2.150 | ~R$ 672 |
| Total de juros | ~R$ 534 mil | ~R$ 361 mil |
A diferença de juros passa de R$ 170 mil — mais da metade do valor financiado. E a taxa contratada é exatamente a mesma nos dois casos. Dá para refazer essa comparação com os valores da sua proposta na calculadora de financiamento, que mostra Price e SAC lado a lado.
O ponto de virada acontece por volta da parcela 120: dali em diante, a parcela do SAC já é menor que a da Price, e a distância só aumenta.
Por que o banco quase sempre oferece a Price
Não é conspiração; é análise de crédito. O banco só aprova um financiamento se a parcela couber em cerca de 30% da renda comprovada. Como a primeira parcela do SAC é uns 25% maior, muita gente simplesmente não é aprovada no SAC — precisaria comprovar uma renda bem mais alta para o mesmo imóvel.
A Price, portanto, aumenta o número de clientes elegíveis. Ela também é mais fácil de vender: “parcela fixa de R$ 2.150” soa mais confortável que “começa em R$ 2.673 e vai caindo”.
Mas se a sua renda comporta a parcela inicial do SAC, vale insistir. Bancos oferecem os dois sistemas em financiamentos imobiliários — nem sempre espontaneamente.
O detalhe que quase ninguém verifica: o saldo devedor
Aqui está o efeito mais subestimado da escolha. Depois de cinco anos pagando religiosamente um financiamento de 30 anos:
- Na Price, o saldo devedor caiu cerca de 8% a 10%.
- No SAC, caiu cerca de 17%.
Isso importa muito em três situações concretas: se você quiser vender o imóvel (o saldo devedor é abatido do que você recebe), se quiser quitar antecipadamente, ou se quiser amortizar com FGTS. Em todos esses cenários, quem está no SAC chega com uma dívida menor.
Quando a Price faz mais sentido
Não existe sistema universalmente melhor. A Price vence em três situações:
Orçamento apertado agora, com perspectiva de melhora. Se a parcela inicial do SAC te deixa sem folga, o risco de inadimplência supera a economia teórica de juros.
Contratos curtos. Num financiamento de veículo de 48 meses, a diferença de juros entre os sistemas costuma ser de poucos milhares de reais. A previsibilidade da parcela fixa pode valer mais.
Necessidade de previsibilidade absoluta. Parcela fixa em valor nominal facilita o planejamento — ainda mais para quem tem renda variável.
Como amortizar direito
Se você entrou na Price e tem alguma folga, amortizar antecipadamente resolve boa parte do problema. Cada real amortizado abate diretamente o saldo devedor, e você deixa de pagar todos os juros futuros sobre ele — o equivalente a um investimento com o rendimento da taxa do seu contrato, sem risco e sem imposto.
Ao amortizar, o banco é obrigado a oferecer duas opções:
- Reduzir o prazo: economiza mais juros, porque elimina as parcelas do fim do contrato.
- Reduzir a parcela: melhora o fluxo de caixa imediato.
Se o objetivo é pagar menos no total, escolha prazo. E lembre: em financiamentos do SFH, o FGTS pode ser usado para amortizar a cada dois anos.
Antes de assinar, faça estas três perguntas
- Qual é o CET? O Custo Efetivo Total inclui seguros MIP e DFI, taxa de administração e tarifas. É o único número comparável entre bancos — a taxa de juros isolada não é.
- A correção é por TR ou IPCA? Contratos indexados ao IPCA começam com taxa menor, mas o saldo devedor é corrigido pela inflação. Em cenário inflacionário, a parcela sobe.
- Vocês oferecem SAC? Pergunte explicitamente e peça a simulação nos dois sistemas, por escrito.
Simule com os seus números
As médias deste artigo servem para entender o mecanismo. A decisão precisa ser tomada na calculadora de financiamento, com o valor, a taxa e o prazo da sua proposta — inclusive porque prazos menores mudam bastante a conta.